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Pesquisa Hubs Brasil

Um dos primeiros dados sobre redes sociais na Internet surgiu num tempo em que elas ainda engatinhavam. Isso foi em 1991, quando Howard Rheingold, o renomado jornalista americano, afirmou que 16% das pessoas mais ativas da comunidade virtual The Well eram responsáveis por cerca de 80% de todo o conteúdo publicado. Mais de uma década depois, em 2004, quando as comunidades virtuais já interessavam investidores e empresas, a Participate.com, empresa dedicada a investimentos na rede, divulga pesquisa apontando que entre 10% e 18% dos membros de comunidades on-line são responsáveis pela maior parte das atividades de publicação de conteúdos.

Dessa época para cá, muita coisa aconteceu na evolução das ferramentas de redes sociais no sentido de ampliar as atividades de seus usuários. Todo o investimento tecnológico feito a partir do lançamento do Orkut, em 2004, parece ter dado resultado. Pesquisa realizada pela Nox4Think, em 2013, mostra que houve um incremento significativo nas atividades dos usuários de redes on-line, que saltaram do patamar de 16% para impressionantes 90%. O segredo desse crescimento deve-se, sobretudo, às várias possibilidades de participação hoje oferecidas aos usuários, que vão desde um simples curtir ou compartilhar uma mensagem, até publicar fotos e vídeos. Esse número de opções acabou por converter boa parte dos “espectadores digitais” da primeira fase da Internet, incentivando-os a atuar de forma mais assídua e variada.

Mas não nos enganemos: por detrás desses números robustos, há boas diferenças entre usuários nas redes. Para tentar entender melhor essas diferenças, a empresa de pesquisa Nox4Think realizou uma sondagem na qual buscou, de forma inovadora, correlacionar aspectos de atividades presenciais e virtuais dos entrevistados.

Redes Sociais: presenciais e virtuais

As redes sociais não são um privilégio da Web, já que vivemos em rede desde sempre. Por isso, a Nox4Think buscou saber se aqueles que possuem grande atividade nas redes virtuais também demonstram o mesmo em suas redes pessoais. Para tanto, perguntas referentes a atividades sociais com amigos, colegas e parentes foram introduzidas na pesquisa. Outra correlação importante diz respeito ao nível de reputação no coletivo desfrutado pelo entrevistado. A questão “quantas pessoas com um problema pessoal lhe pediram ajuda no último mês” foi correlacionada com “mensagens retwittadas no Twitter” e “mensagens compartilhadas no Facebook”. Elas procuram saber se o participante usufrui de reputação no coletivo, se ele é percebido como um ator que goza da confiança de seus pares tanto no mundo presencial quanto no mundo virtual. Além disso, aspectos relativos a atitudes cívicas e políticas foram levantados. Participar de eventos e mobilizações sociais, assinar petições, alertar a mídia ou sites sobre problemas com produtos e serviços de empresas indicaram aqueles com implicação nos problemas e demandas da sociedade.

Há um mito de que pessoas muito ligadas em redes sociais não possuem muitos amigos e não têm muitas atividades sociais. A pesquisa da Nox4Think, onde a maior parte dos que responderam possuem conta no Facebook, obteve os seguintes dados:
76% afirmam que receberam algum pedido de ajuda pessoal no último mês; 89% se reuniram mais de duas vezes no último mês com amigos, colegas ou familiares em um local público para comer, conversar ou beber; 65% foram mais de duas vezes ao cinema, teatro ou shows com amigos, colegas ou familiares no último mês; 55% praticaram mais de duas vezes algum esporte ou atividade recreativa com amigos, colegas ou familiares, também no último mês.

Os Hubs das redes

Caso queiramos avaliar o perfil dentre os mais atuantes socialmente, seremos surpreendidos com o fato de que eles também são extremamente atuantes nas redes sociais. Pessoas que são muito solicitadas por outras para ajuda-las em algum problema pessoal, e que também se encontraram mais de cinco vezes no último mês com amigos, colegas e parentes tanto para conversar, beber ou comer em locais públicos, quanto para ir ao cinema ou a shows representam cerca de 10% do público da pesquisa. A maior parte dele teve participação em ações e mobilizações sociais, alertou a mídia ou site de denúncia sobre algum problema com serviços prestados por empresas ou produtos, assinou petições ou participou de campanhas na Web, notificou a justiça ou polícia a respeito de algum problema local. Trata-se, portanto, de um público ‘ligado’ socialmente. Com tantas solicitações e atividades públicas esse grupo poderia ter baixa atividade nas redes. Mas não.

É justamente ele que se destaca como Hub nas redes sociais. 60% deles estão no Twitter e são muito ativos, ou seja, não apenas publicam com frequência, mas afirmam que sempre são retwittados e recebem menções. Na pesquisa, quase metade dos que afirmam possuir mais de 300 seguidores estão nesse grupo. Além disso, esses mesmos 10% da amostra possuem grande atividade no Facebook, estando entre aqueles que possuem muitos amigos. 60% possuem mais de 300 amigos e todos recebem comentários, curtir e são compartilhados.

Caso olhemos apenas para o Twitter, verificamos que 13% declaram ter mais de 300 seguidores. O perfil desses usuários é o de um grupo com muito bom padrão de atividades sociais, todos declaram ter muitos amigos, ter recebido muitos pedidos de ajuda pessoal e têm um ritmo de encontros sociais acima de duas vezes no último mês.

Twitter X Facebook

A pesquisa também mostra o que já vem sendo divulgado por outros veículos: a população do Facebook é o dobro daquela do Twitter, com o detalhe de que praticamente todo usuário do Twitter possui uma conta no Facebook e 66% deles possui uma conta no Linkedin. Ao analisar o perfil do usuário do Twitter, entre aqueles com bastante atividade de postagem encontramos 68% que afirmam que são retwittados e recebem menções. Dentre esses, mais de 30% possuem acima de 200 seguidores e quase 10% possuem mais de 500 seguidores. Nesse mesmo grupo de 68% de membros do Twitter, que são retwittados, encontramos 10% com mais de 1000 amigos no Facebook. Eles se destacam também por ter uma alta participação em petições (71%), por alertar sites sobre problemas com serviços e produtos de empresas (58%) e por participar de eventos e movimentos sociais (56%). Além disso, constituem um grupo que recebe muitas solicitações de apoio de amigos com problemas pessoais (81%).

Já quem possui pouca atividade no Twitter declara quase nunca ser retwittado nem receber menções. Muitos desse grupo, por outro lado, apresentam boa atividade no Facebook, onde recebem comentários, curtir e têm seus posts compartilhados. Muito provavelmente esses usuários estão se sentindo melhor nas comunidades do Facebook, onde grupos de conhecidos oferecem respostas para as atividades dos amigos de forma mais constante e com elementos afetivos. Pode ser que façam parte daqueles que estão deixando o Twitter para se instalar no Facebook, já que o Twitter perdeu 24% de audiência neste último ano.

Quando analisamos os participantes do Facebook que não possuem conta no Twitter, verificamos que 62% deles possuem menos de 300 amigos e 56% recebem poucos comentários, curtir e têm seus posts pouco compartilhados. Em termos de participação em petições, esse grupo com menos repercussão apresenta bons números (50%), mas perde em alerta a sites sobre problemas com produtos e serviços de empresas (37%) e em participação em eventos e movimentos sociais (35%).

Conclusão: os mais ativos no Facebook também são mais ativos no Twitter ou estão entre aqueles com bom nível de atividades na rede do passarinho azul. Quem é Hub no Twitter, acaba sendo Hub no Facebook.

Espectador Digital

Mas qual seria o novo grupo de espectadores digitais? Ele seria composto por frequentadores do Facebook com baixa atividade na rede. Ou seja, eles frequentam seus grupos e acompanham as atividades dos colegas. Eles também publicam, curtem e compartilham os posts dos colegas, mesmo que em níveis mais modestos.

Consumo no mundo digital

Outro aspecto interessante que a pesquisa da Nox4Think apresenta é que a conversa sobre consumo está acontecendo nas redes. Cabe lembrar que uma pesquisa da Andersen Consulting, de 2004, já mostrava que 62% dos compradores na Internet afirmavam que as considerações de outros clientes e suas recomendações os orientavam nas compras on-line. Na recente pesquisa da Nox4Think, entre o público pesquisado, averiguou-se que 74,5% dos entrevistados solicitam informações sobre bens duráveis e de consumo. Isso nos mostra o quanto os processos de escolha e decisão para os atos de consumo em nossa sociedade se tornaram complexos, não apenas porque há mais consumidores potenciais no mercado, com a ascensão das classes C e D, mas também porque a variedade de tudo que é produzido instala mais dúvidas do que certezas entre os consumidores. Portanto, as necessidades de informações sobre o que comprar ou usar só faz crescer e nesse caso, as redes sociais se apresentam como terreno amplamente favorável para a orientação dos consumidores.

Mas a pesquisa da Nox4Think também detectou que os usuários de redes sociais têm forte propensão à divulgação de anúncios de sites, de promoções e eventos em suas contas. Eles representam 60% do público entrevistado. Se somarmos a isso aqueles que indicaram bens duráveis e de consumo diretamente aos amigos, teremos um porcentual de 95% dos entrevistados com alguma atividade de indicação de consumo nas redes nos últimos dois meses.

Esses números comprovam o quanto os consumidores têm buscado as redes sociais, não apenas para receber orientações sobre suas escolhas e decisões de compra, mas igualmente para expressar e divulgar suas experiências de consumo (sejam elas positivas ou negativas). Nesse jogo entre oferta e procura de informações de consumo, os Hubs desempenham papel essencial, pois eles podem propagar a mensagem de uma empresa através das redes para pontos mais distantes do que sua própria página do Facebook ou Twitter poderia fazer.

Ainda há muito a se aprender sobre a dinâmica das redes na Internet e mais ainda sobre as correlações entre elas e as redes pessoais e de colegas no mundo presencial. O certo é que as empresas estão procurando seus Hubs, aqueles que possuem reputação tanto no mundo virtual quanto em atividades e ações presenciais. O Twitter continua sendo um bom caminho para a propagação de informação. O passarinho azul ainda concentra os Nox das redes.